VII CONFARAD – “SEFARAD E OS REFUGIADOS DA SHOAH” – 3ª Parte

por Rachel Mizrahi 

Histórico do neocolonialismo

Inglaterra – Desde 1914, a Inglaterra mantinha o protetorado no Egito e em 1922 controlava a política externa e defesa militar no país. Ocupou as margens do Nilo até a construção do canal de Suez.

Itália – Em 1911, a Itália havia conquistado aos turcos as possessões africanas de Cirenaica, Tripolitania e Fezzan e em 1934 unificou-as sob o nome de Líbia.

França – Em 1881, a França havia estabelecido um protetorado oficial na Tunísia. O Marrocos, controlado por um sultão subordinado à Turquia. Em 1912 tornou-se um protetorado francês.

Em 1830, a França controlava a Argélia que, em 1940, tornou-se parte oficial da França, administrada por um governo geral.

Diferenças entre Espanha e Portugal no período.

Espanha: Enviou às prisões francesas espanhóis republicanos. Solicitou às províncias espanholas, listas de nomes de judeus espanhóis e estrangeiros e as enviou à Himmler que visitou a Espanha. Himmler Mantinha contatos amistosos com o embaixador espanhol em Berlim.

Portugal mantinha relações comerciais com a Alemanha e com seu tradicional companheiro a Inglaterra. Exportava produtos estratégicos para indústria bélica alemã que utilizavam a costa portuguesa para abastecimento e posto avançado sobre o Atlântico. Portugal queria se prevenir de possíveis ataques em seu território. 

É tempo de se fazer justiça aos que sofreram com as investidas nazistas no Norte da África, onde campos de concentração foram montados e judeus, depois de perderem bens e posições e encaminhados a trabalho forçados, como o de construir estradas.

Foto: Yad Vashem

Embora existam livros publicados com a relação dos nomes de judeus do Marrocos, Algéria e Líbia, somente a pesquisa poderá comprovar se os comboios saíram das terras de origem e encaminhados a campos de extermínio europeu…

Esses comboios revelam a intenção completa de destruir o judaísmo. O comboio 44 de 9/11/1942 foi inteiramente entregue à deportação dos judeus originários da Grécia e da Turquia. 

A partir de 1942, o mito da invencibilidade alemã é destruído e a  coordenação da resistência se processa eficientemente.

A ocupação aliada, em 1943, impediu o envio desses comboios pela França ocupada.   

Projeto à Fapesp – resumo

Portugal não se distinguiu de outros países europeus. Começou restringindo pela “política de fronteiras” e a entrada aos emigrantes que não poderiam voltar ao país de origem, como foi o caso dos judeus alemães. Segundo alguns historiadores, o Salazarismo, caracterizado como fascista, não foi um regime de massa e o anti-semitismo não fez parte de suas bandeiras. Visando a integração dos seus cidadãos, o sistema agia “sem violência” e de acordo com a “brandura dos costumes portugueses”. A PIDE – organização secreta de Vigilância e Defesa do Estado, diretamente controlada por Oliveira Salazar deferia todos os pedidos de entrada ao território português e mantinha por princípio básico a exclusão dos comunistas. Embora Portugal não apoiasse a perseguição aos judeus na Alemanha, também não os acolheu, permitiu-lhes, somente, a passagem, era um “país de trânsito”[1].

Em 1940, conquistada Paris, milhares de refugiados buscaram Bordéus ao sul, ainda não alcançada pelas tropas nazistas. Grande número de refugiados judeus passava por ali em busca de um “visto de transito” concedido pelo humanista português, o cônsul Aristides de Sousa Mendes na cidade. Estudiosos apontam que 50.000 refugiados entraram em Portugal, por via terrestre. Mais de 10.000 autorizações foram concedidas pelo cônsul aos judeus em direção à Espanha ou aos que, por dias, semanas ou meses esperavam em Portugal as embarcações que os conduziriam à liberdade na América ou África[2].  A maioria dos refugiados procedia da Alemanha, Áustria, Polônia, Itália, Checoslováquia, Bélgica, Luxemburgo, Holanda Hungria, França, Rússia e dos países Bálticos. Aguardavam em Lisboa, Porto, Coimbra, Caldas da Rainha, Figueira de Foz ou na Ericeira pelo visto de entrada e o navio de transporte. Não poderiam se deslocar 3 km dos locais onde estavam. A Costa do Sol (Estoril e Cascais) transformou-se em local de moradia aos que dispunham de valores. No grupo de refugiados, encontravam-se políticos, aristocratas, diplomatas e intelectuais. Testemunhas afirmam que Portugal foi o único país europeu a receber judeus de braços abertos, uma vez que a população mostrava-se hospitaleira e sem sentimentos anti-semitas.      

A condição de neutralidade favoreceu enormemente aos países europeus que se declararam como tal. Enquanto na Suíça e na Suécia, os refugiados permaneceram em seus territórios até o final da guerra, os portugueses os colocaram “em trânsito”. A neutralidade permitiu a transformação de Portugal em centro não somente de passagem de refugiados, mas de espionagem e onde se realizavam trocas comerciais nas duas frentes da guerra. Além de ampliar 600% suas reservas de ouro, Portugal reexportava  petróleo americano, fosfato, açúcar, estanho, conservas, agasalhos, calçados e o Valfrâmio (?) para a Alemanha nazista. O afluxo de capitais, resultante das exportações portuguesas, permitiu o incremento dos transportes e venda de serviços[3]. 

Além de manter-se fora da guerra, a neutralidade de Portugal foi conveniente para a Alemanha e à Inglaterra, tradicional aliada. Apesar da força de regime, as autoridades lusas agindo  neutralmente, permitiu a estadia e a salvação de muitos judeus. No final do conflito, Salazar cedeu a ilha de Açores para a base norte-americana, conseguindo em troca a promessa da manutenção do regime e do Império Colonial. Em esquema de comparação, Portugal e Brasil se assemelhavam pela identidade cultural e social. Os dois países mantinham regimes ditatoriais pautados no nacionalismo, no militarismo e na religião católica. Restringiam por ações diplomáticas, a entrada de judeus em seus territórios e, apesar de não sustentarem (internamente) o anti-semitismo, esta circunstância é, hoje, colocada em questão, visto que, no DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) há centenas de cartas anônimas denunciando judeus.     

Os refugiados do nazismo alemão e do fascismo italiano encontraram em Portugal um porto de abrigo seguro, conquanto transitório, pois nada foi feito para que os refugiados se integrassem ou ali ocupassem postos de trabalho. Embora o governo português não tenha dado assistência, permitiu que organizações internacionais de apoio – como a JOINT e outras – funcionassem em Portugal, usando-a como trampolim para os que desejavam chegar a algum país das Américas. Daí a importância de verificarmos se havia contatos entre os diplomatas portugueses e brasileiros e, também avaliarmos os conteúdos dos discursos filo-semitas e anti-semitas registrados na documentação diplomática desses países.

 

METODOLOGIA E CRITÉRIOS DE ANÁLISE

Diante de depoentes, não habituados a registrar suas memórias em diários ou cartas, vejo-me forçada a buscar a técnica da História Oral para recompor histórias de vida, em especial, os sentimentos de rejeição sentidos na terra de origem e os principais acontecimentos que envolveram esses imigrantes quando retomaram a vida, reformulando valores.

A composição das Histórias de Vida, metodologia de cientistas sociais, aplicada na construção da memória de pequenas comunidades, é adequada e pertinente à minha proposta. Apreender a “História do Presente” não é tarefa fácil e esbarrar no subjetivismo é comum, especialmente, quando adotamos metodologia não convencional, rejeitada por historiadores conservadores. Com auxílio de recursos técnicos como o gravador/vídeo, produzimos e registramos “documentos”.

A maioria dos entrevistados apresenta como “trajetórias de vida” momentos de grandes mudanças; às vezes, polêmicos. O emprego da técnica de história oral permite a apreensão da realidade que nenhum outro documento consegue revelar. Algumas das informações, ausentes dos documentos escritos podem ser compostas nas entrevistas, marcadas por silêncios e desalentos, tornando o pesquisador cúmplice de revelações contidas e algumas, historicamente significativas.

[1] Vidas Poupadas: a ação de três diplomatas portugueses na II Guerra Mundial. Catálogo da Exposição Documental. Lisboa, 2000.

[2] Idem.

[3] Com propinas, agentes do governo e oportunistas davam informações a diplomatas, a espiões e aos refugiados.  

Fin del artículo

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