VII CONFARAD – “SEFARAD E OS REFUGIADOS DA SHOAH” – 1ª Parte

por Rachel Mizrahi 

A Shoah foi uma enorme tragédia coletiva sucedida na família humana. Diante da negação e a destruição de provas documentais sobre o Holocausto impõe-se, de forma acelerada, o registro das histórias dos sobreviventes e refugiados do Nazismo e da II Guerra Mundial, pois os últimos sobreviventes ou, os que testemunharam as ações genocidas, se encontram em fase final de vida. Embora saibamos que o Instituto Yad Vashen[1] reúna 55 milhões de páginas de documentos, listas de deportações, registros de pessoas mortas nos campos, documentos sobre as comunidades judaicas aniquiladas e, que em 1995, o cineasta Steven Spielberg, filho de sobrevivente, tenha produzido 52.000 entrevistas, registradas em Israel e nos países onde os sobreviventes e refugiados se instalaram, ainda há, muito por fazer[2].

Foto: Yad Vashem

O Brasil recebeu perto de 10.000 sobreviventes da II Guerra Mundial e, ainda que, a comunidade judaica esteja integrada na sociedade brasileira e sejam raras as manifestações públicas do antissemitismo, preocupamo-nos com investidas e publicações racistas em livros, revistas, jornais e sites no país.

Pesquisas acadêmicas sobre a política imigratória brasileira a partir da década de 1930 sobre as restrições à entrada de refugiados da II Guerra no país, elaboradas por historiadores brasileiros foram alavancas que permitiram o nascimento de Centros de Estudos em São Paulo e no Rio de Janeiro. O LEER – Laboratório de Estudos sobre a Etnicidade e Racismo -, sob a coordenação da Profa. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro da Universidade de São Paulo tem apoio da Professora Dra. Helena Lewin da Universidade do Estado do Rio de Janeiro[3].

Entre os projetos desenvolvidos pelo Laboratório com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, foi o da criação do Arquivo Virtual sobre o Holocausto e Antissemitismo (arqshoah@com.br). Este arquivo disponibiliza on-line um conjunto de testemunhos e documentos históricos que tem como foco os refugiados do nazifascismo e a postura do governo brasileiro diante do Holocausto. Entre os vários links que os consulentes do portal podem acessar, é o inventário dos sobreviventes e o cadastro dos refugiados radicados no Brasil com os seus dados, suas histórias, imagens, documentos pessoais, entrevistas, vídeos e livros de memória, que coordeno.  

Embora a maioria das vítimas judias do extermínio seja de origem asquenazi, no conjunto das vítimas do Nacional Socialismo estavam os judeus de origem ibérica da França, Holanda, Itália. Objetivando o domínio total e o extermínio de todo o povo judeu, os nazistas em 1941, ao invadir a região dos Bálcãs, atingiram numerosas e brilhantes comunidades do antigo Império Otomano, oriundas de Espanha e Portugal que desde 1492 mantinham-se bem e protegidas. Diante da perseguição, estas comunidades foram totalmente extintas.

Em 1935, a institucionalização do racismo na Alemanha levou à mobilização dos 500.000 judeus germânicos. Embora grande número tenha buscado emigrar, inclusive para Eretz Israel, parte, na crença de que a política discriminatória não fosse duradoura, retardou sair da terra que, por séculos foi local de abrigo e moradia.  

A insegurança do período atingiu a todos, provocando intensa mobilidade do povo judeu, situação comprovada no depoimento de Esther Cohen Haharoni, nascida na Espanha, hoje, em São Paulo. Seus pais, na década de 20,  transferiram-se de Istambul para Barcelona. Iniciada a Guerra civil espanhola em 1936, a família, em boas condições financeiras, resolveu mudar-se para Paris, onde permaneceu até 1940, quando a cidade foi invadida pelos nazistas. Os Cohen voltaram à Espanha até decidir retornar ao Oriente Médio, junto de refugiados judeus ao futuro Estado de Israel.   

Na Guerra, iniciado o aniquilamento em massa, restava aos judeus que ainda se mantinham na Alemanha, nos países aliados e conquistados, escapar. Multiplicaram-se as rotas de fuga e as bases de apoio que garantiriam o trânsito seguro dos refugiados, para além do Atlântico. Foram raros os países europeus que concordaram em servir de trampolim para salvação dos refugiados, principalmente aos que não dispunham de garantias econômicas para arcar com os gastos de sobrevivência em continente tumultuado pela guerra. Diante das dificuldades à emissão de papéis aos refugiados judeus, foi comum a procura de documentos falsos, inclusive atestados de batismo cristão.

Declarando-se neutras, Portugal e Espanha foram países procurados por grande número de refugiados judeus. Em 1941, quando os nazistas invadiram terras da Europa Balcânica, diplomatas espanhóis e portugueses da Grécia, Iugoslávia e Bulgária foram procurados por sefaradis em busca da salvação, circunstância registrada no depoimento de Moisés de Castro Nahum ao grupo de História oral do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, de São Paulo. Nahum informa que qa da Macedie (atual Repuando os nazistas invadiram a Grécia, sua família em Scopie, atual República da Macedônia, aguardava em campo, a deportação. O amigo, David Navarro, também preso, conseguiu que o embaixador espanhol solicitasse às autoridades alemãs a saída dos detidos da origem. Todos os sefaradis do campo conseguiram a liberdade.  

Em Portugal, Oliveira Salazar, ainda que fascista, não adotara o antissemitismo como bandeira, permitindo que famílias judias se instalassem no país. Depois, em conveniente política de fronteiras, Portugal transformou-se em “país de trânsito”, permitindo somente a temporária entrada de refugiados, e impedindo aos que não pudessem retornar ao país de origem, caso dos judeus alemães. Tomada Paris, milhares de refugiados buscaram a cidade de Bordéus ao sul, ainda não alcançada por tropas nazistas. Entre os refugiados encontravam-se políticos, aristocratas e intelectuais judeus em busca destes “vistos de trânsito”, conseguidos pelo diplomata português Aristides de Sousa Mendes. Por seu intermédio, cerca de 10.000 refugiados chegaram a Portugal, por via terrestre. Hoje, o Instituto israelense Yad Vashen considera Souza Mendes um dos “Justos entre as Nações”.

A antiga Sefarad transformara-se em terra dos refugiados da Shoah. A presença de refugiados judeus em Portugal e na Espanha levou que entidades filantrópicas internacionais e a comunidade local apressassem a emissão de vistos de entrada a países da América, África e às terras do Oriente Médio. Além da ajuda da JOINT (American Jewish Commitee) e da Cruz Vermelha Portuguesa, foi benemérito o trabalho de pessoas, entre as quais, os irmãos Sequerra, Levy, Elias Baruel e do rabino Mendel Wolf Diesendruck que, em 1952 aceitou dirigir uma escola judaica em São Paulo. Diplomado em Filosofia pela Academia Rabínica austríaca, estabelecido em Portugal desde 1940, Diesendruck, voluntário da Jewish Agency for Palestine, auxiliava sobreviventes e refugiados judeus à espera do visto de entrada em países da América. Por falar o português, Diesendruck foi rabino aos sefaraditas da Sinagoga da Abolição, hoje Ohel Yaacov. 

Continúa el 26 de febrero de 2011…

 

[1] O Instituto http://www.yadvashen.org.il/ é o maior acervo documental sobre a Shoah no mundo.

[2] A Fundação Spielberg registrou a história de 500 sobreviventes, no Brasil.

[3] Autora do  “O Anti-semitismo na era Vargas”. São Paulo: Editora Perspectiva, 3a.edição, 2007.

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One comment

  1. Gostaria de entrar em contato com a escritora Dra. Rachel Mizrahi. Estou pesquisando minhas raízes e estou encontrando muitas dificuldades. Nome da minha avó Hayfa Cesar Jose Jacob; meu avô Elias Jorge; minha avó era do Líbano e meu avô da Síria. Qualquer sugestão por favor entrar em contato.

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