O Templo Moses, uma das maiores e mais tradicionais congregações judaicas de Miami Beach, recebeu com merecidas honras um dos mais prestigiados rabinos sefaradis do Estados Unidos, Solomon Maimon, que viajou desde a longínqua Seattle para um encontro com seus confrades do extremo oposto do país. Seattle e Miami distam 2.732 milhas uma da outra, o que equivale a mais de 4.00 Km e uma viagem aérea sem escalas entre as duas cidades dura mais de cinco horas. Fora os três fusos de diferença, o que torna o percurso extremamente cansativo, especialmente para alguém que já está com seus noventa e quatro bem vividos anos.

Mas o Rabino Maimon, que se orgulha de ser descendente em linha direta de Maimonides, o Rambam, viajou com a esposa também idosa e não só enfrentou galhardamente a longa jornada como fez questão de cumprir uma extensa agenda em Miami. Participou da cerimônia de T” U Bishvat, Dia da Árvore, que os sefaradis turcos denominam, carinhosamente, “La Fiesta de las Frutikas”, como também de um Cabalat Shabat que incluiu um jantar em homenagem ao casal Maimon e contou com a presença de mais de 400 convidados. Miami e Seattle disputam, palmo a palmo, o título de terceira coletividade sefaradi dos Estados Unidos, atrás apenas de Nova Iorque e Los Angeles. Solomon Maimon, depois de conduzir por quatro décadas os serviços religiosos da Congregação Sefaradi Bikur Holim, em Seattle, foi agraciado, ao se aposentar, com o honroso título de Rabino Emérito da instituição.

Ele foi o primeiro rabino sefaradi a realizar seus estudos religiosos e se graduar nos Estados Unidos, em uma época em que as aulas na Yeshivá University, de Nova Iorque, eram ministradas em yídishe. E o yídishe está para um sefaradi como o grego ou o búlgaro para um chinês. Mas o jovem e aplicado estudante não esmoreceu e conseguiu, a custa de muito esforço, aprender o judeu-alemão, obviamente falado com um certo sotaque para uma pessoa fluente em turco, hebraico, inglês e ladino. Conta-se, a esse respeito, uma história pitoresca. Aluno dedicado nos oito anos em que cursou a yeshivá, Maimon foi questionado por um de seus orientadores, o rabino Yosef Soloveichik, a responder uma determinada questão. Obviamente acertou, mas o exigente professor criticou sua pronúncia, assegurando que seu yídishe, de tão carregado, parecia estar sendo falado por um turco”. A turma toda caiu na risada, o que intrigou o mestre , que ignorava o fato de Maimon ser, efetivamente, turco.
OS JUDEUS E O IMPÉRIO OTOMANO
A Turquia recebeu de braços abertos os refugiados judeus da Península Ibérica após a expulsão de 1492 da Espanha e a conversão forçada de 1497 em Portugal. Governada pelo Sultão Bayazid II, que vislumbrou na vinda daquele expressivo e qualificado contingente humano a possibilidade de fortalecer ainda mais os domínios do seu já vasto império, ofereceu aos recém-chegados liberdade religiosa e econômica, ou seja, tudo aquilo que vinha sendo sistematicamente negado aos judeus nos países de onde provinham. Além disso, considerou-os Dhimis, ou seja, uma minoria que deveria ser protegida por ele e seus sucessores. E os judeus, livres das perseguições cíclicas que os atormentavam no mundo cristão da época, prosperaram – e fizeram a Turquia prosperar – nos quatro séculos seguintes.

Todavia, a crise que se abateu sobre o país após a Primeira Guerra acabou fragmentando o Império Otomano, empobrecendo ainda mais a já combalida economia turca e provocando um êxodo contínuo da comunidade israelita. Os judeus turcos se espalharam pelo mundo, sendo que as três Américas receberam expressivas levas desses imigrantes, conhecidos como turquinos ou turcanos. A Professora Margalit Bejarano, da Universidade Hebraica de Jerusalém, sem sombra de dúvida uma das maiores autoridades no estudo das coletividades sefaradis, classifica os judeus de origem turca como ladino-parlantes. Segundo ela, dentre os sefaradis é o segmento que vem apresentando a mais rápida diluição na sociedade maior, talvez até – e a conclusão é minha – pela convivência harmônica que sempre procuraram cultivar com pessoas e grupos de outras crenças. No Brasil, as comunidades sefaradis turcas se estabeleceram, preferencialmente, nas cidades do Rio de Janeiro, então ca pital do país, São Paulo e Porto Alegre. No Rio, ergueram o Templo Beth-El e o Clube Israelita Brasileiro-CIB, em Copacabana, assim como o Lar dos Velhos de Ipanema, entidades modelares e em atividade ininterrupta até os dias de hoje. Em São Paulo, fundaram a Sinagoga da Abolição, que já não funciona mais no endereço original, mas cujos descendentes, associados a judeus de outras origens, acabam de inaugurar um novo templo, nos Jardins. E os sefaradis gaúchos mantém em Porto Alegre o Centro Hebraico Riograndense, que acaba de completar 91 anos de profíqua existência, no mesmo prédio próprio erguido há décadas pelos pioneiros que chegaram ao estado nos primórdios do século passado.

E é lá, no extremo sul do país, que é editada, todos os meses, a excelente revista El Djudió, em português, espanhol, inglês e ladino, cujos exemplares são disputadíssimos e que tive a honra de entregar pessoalmente ao Rabino Maimon nessa recente estada em Miami. Tenho a plena certeza de que, além de leitor, Solomon Maimon logo vai ser destaque em suas páginas.
Nelson Menda
eSefarad Noticias del Mundo Sefaradi