VII CONFARAD – “SEFARAD E OS REFUGIADOS DA SHOAH” – 2ª Parte

por Rachel Mizrahi 

Aspectos da II Guerra ainda não estão completamente estudados e a minha pesquisa teve início ao pesquisar um livro de Jacques Giami – Chronique dês années de Deportation 1942-1944, editado na França onde, enormes listas de judeus dos países da África do Norte direcionados por comboios a campos de extermínio da Europa. Sabe-se que no conjunto dos sefaradis franceses encaminhados aos  campos, incluíam-se judeus de Marrocos, Argélia e Tunísia, instalados em Paris, Marseilhe e Lyon.

O Norte e o Nordeste da África eram áreas sob o controle colonialista europeu, dependentes de países posicionados em campos opostos na Guerra. A região era de fundamental importância, não só de estratégico posicionamento, mas por onde se chegava às áreas petrolíferas do Oriente Médio, sob controle aliado. Foi através da região que os aliados iniciaram a investida aliada às forças do nazismo na Europa.

A região do Norte da África estava sob controle da França e da Espanha. Tânger, no extremo norte, gozava de situação diferenciada. A estratégica posição da cidade, exatamente no Estreito de Gibraltar era por onde se fazia o controle da entrada de embarcações do Atlântico ao Mediterrâneo e, por isso designada como área internacional pela Liga das Nações.

Até o advento do Estado de Israel, o relacionamento judaico-muçulmano no Norte da África era relativamente bom, não havendo perseguições ou massacres. Os valores judaicos tradicionais eram mantidos em sinagogas e organismos assistenciais. Em Tânger, a Alliance Israélite Universelle se preocupava com a educação das crianças e jovens que poderiam complementar estudos na França.

Marrocos
Os judeus que viviam em antigas comunidades do Norte da África, preocupados com o antissemitismo expresso pela imprensa e pelas tropas nazistas sediadas na região, buscaram emigrar, pois era corrente que “os nazistas estavam preparando os fornos para os judeus do Marrocos”. Entre os marroquinos judeus que se estabeleceram em São Paulo, citamos os Laredo e os Chalom, famílias de projeção do Norte africano. Descendente do famoso rabino Aron Laredo, Abraham Laredo, além de presidir a comunidade judaica de Tânger, foi Presidente da Câmara de Comércio Internacional da cidade, tendo sido condecorado por serviços prestados com o título de Officiel de Palme Academique. Laredo foi também homenageado por Muhamet V, com a “Ordem de Nissam Alauite”.

Assim que os nazistas invadiram Paris, a França foi dividida. A região, dominada por Vichy se submeteu aos desígnios racistas, levando judeus a ser excluídos de cargos públicos e das profissões. Estas decisões se estenderam aos que viviam em terras do Norte da África, sob controle de Vichy e, consequentemente, ao controle nazista.

Um decreto de Adolphe Cremieux que emancipara os judeus de Marrocos foi anulado. O governo prónazista de Vichy criou campos de concentração para onde foram encaminhados republicanos espanhóis, comunistas e refugiados judeus asquenazis (alemães, húngaros, austríacos, poloneses) que alcançaram o Norte da África pela Espanha e Portugal. O Marrocos Espanhol, em neutralidade, mantinha contato com italianos e alemães.

Anna Barki Bigio, recentemente falecida em São Paulo, nos relatou a história de sua família na Trípoli Italiana. De origem judaica espanhola, os Barki estabeleceram-se em Veneza e Livorno, antes de se transferirem às terras otomanas. Na Turquia, Isaac Barki ao casar-se com Rosa Hassan, filha de um magnata de Istambul, projetou-se no mercado internacional de tecidos. Na primeira década do século XX, seus filhos foram estudar em universidades européias: Moise, na Inglaterra na casa dos tios Pitchon e, Vitali na Itália, na casa de Giuseppe Barki, negociante em Trípoli, colônia italiana do Norte da África.

Em 1922, Isaac Barki, à conselho dos cunhados Samuel e Sara Barki Houli, resolveu transferir-se ao Rio de Janeiro. Vitali, seu filho, casado com a prima Rica Barki, vivia em Trípoli. Quando o casal visitava os pais no Rio de Janeiro, Rica Barki deu à luz as gêmeas Mathilde e Anna, registradas como brasileiras.

De Trípoli, os Barki projetaram-se no Mediterrâneo, comercializando grande variedade de produtos franceses, alemães e japoneses. Em 1939, leis racistas italianas, sancionadas por Mussolini, obrigaram os Barki a emigrar. Suas propriedades e bens foram confiscados pelos nazistas e a residência da família foi ocupada pelo general Rommel. Vitali e Rica Barki, com filhas brasileiras, conseguiram do Itamaraty livre imigração. Moise e Fortuna Barki, irmãos de Rica, chegaram ao Rio no último navio que saía da Itália.

Judeus europeus em campos
Dos campos de concentração criados na Algéria, pudemos colher a história de Moritz Kupfermintz, relatada por Rahel Boraks, sua filha. Nascido em 1910, em Chemnitz, na Saxônia, Moritz foi membro ativo do Partido Comunista de sua cidade natal. A convicção ideológica o levou a se alistar na Legião Estrangeira em 1936, dirigindo-se à Espanha para lutar junto das forças internacionais e democráticas contra o Fascismo do General Franco. Ao voltar à Alemanha, não encontrou seus familiares. Eles haviam se refugiado na França. Moritz descoberto pelas forças políticas alemãs foi preso e encaminhado ao campo de Dachau. Foi torturado para declarar seus companheiros do partido. Numa das investidas, Moritz foi abandonado perto da cerca do campo, de onde conseguiu fugir. Embora tentasse reencontrar a família em Paris, não conseguiu, pois os seus já haviam sido encaminhados para Auschwitz. Moritz alistou-se nas forças da Resistência Francesa e passou a combater os alemães. Quando a Alemanha conseguiu apoio de Vichy, seus colegas de resistência o denunciaram como judeu e comunista. Moritz foi enviado para campos de concentração nas colônias francesas no Saara, na Algéria. Eram campos “de passagem ou campos de estadia vigiada” para onde eram enviados comunistas, espanhóis e judeus. Maurice conseguiu fugir do primeiro e quando recapturado, fugiu de novo, passando a ser conhecido por vários comandantes até ser colocado em um que ficava longe de qualquer cidade. O deserto o impediria de atingir qualquer civilização. Moritz que prezava pela vida e liberdade conseguiu fugir. Era determinado e não se submetia. Sua fuga se deveu à ajuda de um ferreiro espanhol que lhe fez, em molde de sabão, uma chave que abriria a porta da entrada do campo. Conseguiu atravessar o deserto com um cantil de água e 18 tâmaras, adotando o esquema de andar durante o dia e dormir a noite, sob a areia, quando a temperatura baixava muito. Quando chegou à Algéria foi novamente preso. Mas, como as forças aliadas haviam atingido a região, foi libertado. Livre, adaptou-se, investindo na produção de sabão do coco, conseguindo sucesso comercial. Em 1946, no cais do porto, curioso, entrou em uma enorme fila de refugiados judeus que se dirigiam à Palestina e tomou a decisão de embarcar. Em Israel encontrou seus irmãos e primo. Casado querendo continuar luta por um futuro socialista resolveu em 1958, transladar-se para o Brasil.

Outro aspecto pouco estudado é o da presença dos sefaradis em campos de concentração. A presença do grupo se deu em 1942 com a entrada maciva do grupo, procedentes dos países balcânicos.

O impacto do encontro entre judeus de culturas diferentes deve ter sido surpreendente, pois os sefaradis não falavam o iídish ou o alemão e, os asquenazis, por isso, não os identificavam como pertencentes ao mesmo grupo religioso. Ignorados pelos nazistas e discriminados pelos asquenazis, os sefaradis tiveram que se readaptar às circunstâncias de forma rápida pois sua subsistência dependia da rapidez de respostas.

A problemática recentemente tem despertado a atenção de estudiosos e é tema que estamos no momento iniciando. 

Continúa el 05 de marzo de 2011…

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