SEFARADIS: DA INQUISIÇÃO À SHOÁ. Rio/set 2014 – Rachel Mizrahi

Rachel Mizrahi[*]

Na antiguidade, os judeus, diante da facilidade de migrar pelos domínios do Império Romano, principalmente depois da destruição do 2o Templo de Jerusalém no ano 70, acomodaram-se em várias regiões dos velhos continentes, absorvendo, de forma natural, valores e padrões de comportamento de diversos povos. Substituíram o aramaico por outros idiomas, aderiram a costumes, hábitos de alimentação, vestimentas e mais valores, permitindo a revelação de quase uma vintena de grupos judaicos, culturalmente diferenciados. Ao lado da maioria asquenazi da Europa central e Oriental, falando o idish; os sefaraditas da Península Ibérica, o ladino; os do Magreb, o Hakitia; os Judeus Orientais (iraquianos, alepinos, iemenitas e persas) falando o árabe temos os judeus de Bukhara, Ubequistão e, os Falashas da Etiópia.

Ainda que a mobilização fosse comum, a Diáspora Sefaradi a partir do século XV foi significativa, porque concretizada em período áureo do pensamento judaico, posicionando sefaradis e cristãos novos – tornados ao judaísmo – em terras da Europa, África e Império Otomano.

Os judeus ibéricos

Os judeus instalaram-se na Península Ibérica no primeiro século da era comum, antes mesmo dos romanos. Os visigodos depois de cristianizados situavam-se no Norte da Península ocupada desde o século VIII pelos árabes muçulmanos. Oito séculos de domínio árabe – povo que havia institucionalizado a tolerância pelos “Estatutos Dhimmis” – uma saudável convivência prevaleceu entre muçulmanos, judeus e cristãos no período medieval.

Na “região das três religiões”, conhecida como Sefarad, os judeus posicionaram-se na estrutura política árabe e depois aos cristãos da Reconquista. Aprofundando-se em estudos religiosos e filosóficos, os judeus ibéricos atingiram brilhantismo. Seus estudos permitiram um período áureo do judaísmo, conhecido pelas demais comunidades da diáspora. Exemplo digno é o representado por Maimônides (1.135 – 1.204) celebrizado em Fustat no Egito, onde se fixou como líder espiritual.

Liberais e Homens de seu tempo, os sefaradis dedicaram-se na Ibéria aos estudos da Medicina, das Ciências Náuticas, da Astronomia e da Matemática. A bússola, o astrolábio e as Cartas Marítimas foram aperfeiçoados na conhecida Escola de Sagres.

A Inquisição ibérica

O período dos Grandes Descobrimentos Marítimos que inicia a Idade Moderna foi marcado na Península Ibérica por conturbações sociais. A Espanha, depois da expulsão de mouros e judeus em 1492, acompanhando a transferência de parte de seus judeus para o reino português, buscou acomodar seus 50.000 conversos, sob a supervisão do Tribunal da Inquisição, instituído em 1480. Portugal, frente ao Atlântico, politicamente centralizado, contando com uma burguesia predominantemente judaica, abriu suas fronteiras a grande número de judeus espanhóis.

Poucos anos depois, acordando com uma das cláusulas do contrato do casamento com princesa espanhola, D. Manoel decidiu em 1497 pela conversão de todos os judeus de Portugal ao catolicismo. Em 1536, o papa Paulo III autorizou, também, o funcionamento do Tribunal do Santo Ofício no reino luso.

A Heresia dos cristãos-novos

Denunciados como hereges, pois “publicamente católicos e judeus secretos”, os cristãos novos eram denunciados ao Tribunal como apóstatas. Discriminados, perseguidos e com limitadas possibilidades de crescimento, os conversos buscaram emigrar desde meados do século XVI à Itália, França, Holanda e, às demais nações europeias, onde muitos voltaram ao judaísmo.

Os Sefaradis no Brasil

Os judeus ibéricos firmaram-se na terra brasileira a partir de 1503. Fernando de Noronha, judeu, convertido ao catolicismo, foi designado por D. Manoel para donatário da ilha que, hoje, leva o seu nome. Noronha arrematou o primeiro Contrato de exploração do Pau-Brasil. Além de Noronha, o jesuíta José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, um dos fundadores da cidade de São Paulo, era filho de Mência Dias de Clavijo, cristã-nova da ilha de Tenerife.

Responsáveis pela introdução da cana-de-açúcar no Brasil, os cristãos-novos distinguiram-se como Senhores de Engenho e arrematadores de contratos comerciais. No período, Ambrósio Soares Brandão, além de se ocupar com a cana de açúcar, foi autor do famoso “Diálogos das Grandezas do Brasil”, primeiro ensaio de história econômica brasileira. Os cristãos novos eram também identificados como Homens de negócio ou “Homens da Nação”. (judaica).

A Capitania de Pernambuco, produtora de açúcar foi durante o Domínio Espanhol (1580-1640), dominada pelos acionistas da Companhia de Comércio das Índias Ocidentais. A ligação de judeus, de origem portuguesa, com o refino e comercialização do açúcar à Europa, despertou o interesse dos descendentes de judeus de se estabelecer no Nordeste Brasileiro. Favorecida pela administração de Mauricio de Nassau, uma comunidade judaica passou a existir em Pernambuco, considerada a primeira de toda América. Falando o português, os judeus da Companhia passaram a intermediar as ligações entre os grupos sociais, ligados à produção açucareira.

Recife, considerada no século XVII a mais importante cidade de todo Atlântico, ganhou importância histórica pela presença de dois rabinos: Isaac Abuab da Fonseca e Moisés Raphael de Aguilar. Sob contrato, esses rabinos foram chamados da Holanda para conduzir o culto de duas sinagogas: a “Zur Israel” e a “Maguen Abraham”, ambas na capitania de Pernambuco. A Beneficência era exercida pela “Santa Companhia de Dotar Órfãs e Donzelas” que amparava os menos favorecidos. O rigoroso cumprimento das cerimônias judaicas levou esses rabinos fazer consultas a religiosos de Salônica, cidade-mãe do judaísmo da Península Balcânica, então sob o domínio Otomano.

A expulsão dos holandeses do Brasil em 1654 levou o retorno dos sefaradis à Amsterdã. Os diretamente envolvidos com a produção canavieira, instalaram-se nas Antilhas. Em Suriname, Barbados e Curaçao, os investimentos, a técnica e os altos interesses do açúcar no período fizeram com que a região ganhasse a concorrência internacional do produto. Outro pequeno número de sefaradis buscou Nova Amsterdã, iniciando uma comunidade em Nova York, hoje, a maior da Diáspora Judaica.

Expulsos os holandeses, o Santo Ofício português voltou a funcionar na área nordestina. Um processo que nos chama a atenção: é o de Isaac de Castro Tartas, de origem portuguesa, sobrinho do rabino Raphael de Aguilar. Nascido na França, Isaac de Castro, acusado de tentar ensinar judaísmo aos cristãos novos da Bahia foi preso e encaminhado a Lisboa para explicar-se com os inquisidores. Seu processo foi longo e dramático. Submetido a torturas, Isaac de Castro perdeu-se em contradições e foi sentenciado com à pena máxima no Auto de Fé de Lisboa, em 1647. Morreu queimado na fogueira.

Os cristãos novos no Brasil, ainda que proibidos pela legislação discriminatória – os Estatutos de Pureza de Sangue – ocuparam diversos cargos nas áreas administrativas, militares e religiosas. A ocupação destas funções não eliminava possibilidades de denúncias.

A exploração do ouro na Capitania de Minas Gerais no inicio do século XVIII tornou primordial o abastecimento às populações mineiras. Interessante salientar que alguns dos bandeirantes paulistas que descobriram os primeiros filões de ouro em terras das Minas Gerais tinham origem judaica. Raposo Tavares e Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias Paes, o “caçador das esmeraldas”, são exemplos de cristãos novos que engrandeceram o Brasil, o primeiro por ampliar fronteiras coloniais e o segundo por favorecer o crescimento da então capitania de Minas Gerais.

Com a exploração das minas, a cidade do Rio de Janeiro, ganhou importância, porque porto de entrada de negros e gêneros  destinados a uma população crescente e exigente do Rio de Janeiro e das Minas Gerais. A efervescência comercial e a entrada de grande número de portugueses levaram à inquietação e denúncias à Inquisição tornaram-se comuns. No período, numerosos cristãos novos foram denunciados e encaminhados à Inquisição de Lisboa.

Miguel Telles da Costa, Capitão-mor da Vila de Conceição de Itanhaém sediado na vila de Paraty, denunciado como judaizante, teve processo aberto em 1711, denunciado pelo irmão Francisco Mendes de Castro, grande comerciante de Lisboa. Assim que foi preso Telles da Costa perdeu o cargo e todos os bens. Submetido a torturas o Capitão-Mor denunciou grande número de cristãos novos do Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo e das Minas Gerais.     Entre os envolvidos a família do famoso advogado e Procurador da Coroa, João Mendes da Silva, cristão novo, pai do famoso dramaturgo brasileiro António José da Silva, processado e queimado pela Inquisição em 1743. Entre os denunciantes do pai do dramaturgo, além do capitão mor de Paraty, estavam os irmãos Alexandre e Bartholomeu Lourenço de Gusmão, originários de Santos, cidade do litoral paulista. Embora de origem judaica, Alexandre e Bartholomeu Lourenço ocuparam importantes cargos na administração pública da metrópole. Alexandre de Gusmão foi Secretário de Estado de D. João V e, seu irmão Bartholomeu Lourenço, o “Padre Voador”, pela invenção do aerostato, ocupou cargo político-religioso.

As invasões napoleônicas na Espanha e Portugal no início do século XVIII levaram à desativação do Tribunal da Inquisição na Península. A transferência da família real portuguesa para o Brasil em 1808 e a Abertura dos Portos às Nações Amigas transformaram a vida econômica e as instituições políticas brasileiras. O apoio inglês à transferência e a instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro, permitiram a necessária liberdade religiosa. Afinal, os aliados ingleses pertenciam à religião reformista. Portugal, sob o comando de Beresford viu modificar estrutura tradicional pela adoção de uma política liberal.

Os sefaradis do Império Otomano

Nos extensos domínios otomanos, os judeus puderam vivenciar período onde as diferenças religiosas e culturais eram respeitadas. Sob os otomanos, os sefaradis mantiveram o ladino, idioma mãe, enriquecido com vocábulos novos de várias origens. O “judeo espanyol” se manifesta não só no cotidiano, mas nas orações, na poesia e na música, como nos documentos e cartas familiares. Fora absorvido do espanhol medieval, adquirindo notoriedade no século XII e, posicionado no mesmo patamar do hebraico e árabe. De 1.350 a 1.400, as obras clássicas da literatura, na filosofia, ciências eram escritas em ladino, refletindo o nível intelectual alcançado pelos judeus de origem luso-espanhola[1]. Em pouco tempo, o ladino assumiu condição de um idioma singular, próximo ao espanhol. Em meados do século XIX, os “jornais escritos em judesmo/español abordavam assuntos políticos, comerciais, literários e femininos, lidos, não só em Viena, mas nas comunidades judaicas nos Bálcãs, Turquia, Itália, Grécia e de mais países. O jovem búlgaro, Elias Canetti, por exemplo, viveu em espaço intelectualmente intenso e, além do alemão, falava e escrevia em ladino, idioma aprendido e cultivado pela mãe sefaradi[2].

O declínio político militar otomano em meados do século XIX levou famílias sefaradis, procedentes das cidades de Istambul, Esmirna, Salônica, Bulgária, da antiga Iugoslávia, Ilha de Rodes e do Egito emigrarem à França, Inglaterra e Itália no incremento de vários negócios.

O fluxo migratório do Oriente Médio ao Ocidente foi ampliado a partir das primeiras décadas do século XX, causados pelos nacionalismos e as Guerras Mundiais. Embora a América do Norte fosse especialmente procurada, grande número de sefaradis buscou o México, o Uruguai, o Chile e a Argentina, em especial pela semelhança do ladino ao espanhol.  

Imigrantes sefaradis no Brasil

A intensidade da perseguição inquisitorial havia levado a que muitos judeus buscassem as terras próximas do Norte da África. No Marrocos, protegidos, os sefaradis usufruíram da liberdade religiosa e celebrar festas em sinagogas e Juderias. Comunicavam-se em Hakitia, idioma acrescido de vocábulos árabes e hebraicos. Rabinos e líderes comunitários eram comumente convidados para as recepções oficiais das autoridades marroquinas.

O Brasil, sede do governo imperial, recebeu os primeiros imigrantes judeus procedentes de Marrocos que solicitaram permissão para se estabelecer em Belém do Pará e Manaus. Esses imigrantes organizaram as primeiras comunidades judaicas do Brasil independente.

Os atuais estados – Amazonas e Pará – receberam a partir da segunda década do século XIX marroquinos, transformados na primeira leva de imigrantes judeus do Brasil. Alguns de seus descendentes atuais ainda falam o Hakitia, com cadência e entonação, diferenciadas do “ladino”.

Anos depois, instalaram-se nas cidades do Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio, fundaram a Shel Guemilut Hassadim, sinagoga erguida em 1873.

No conjunto dos primeiros imigrantes judeus no Brasil, além dos sefaradis e asquenazis, incluíam-se os procedentes das cidades de Sidon, Beirute, Safed e Jerusalém, cidades do Oriente Médio, que se expressavam em árabe, instalados em maior número no Rio de Janeiro e São Paulo.

Organização Comunitária sefaradi

A pluralidade de origem, os diferentes idiomas e costumes levaram os imigrantes judeus se organizarem no Brasil de forma particular, tomando como matriz as “Kehilot” de origem.

Em maior número, os imigrantes asquenazis, procedentes da Rússia e Europa Centro-Oriental compuseram desde fins do século XIX núcleos judaicos de importância, criando sinagogas e as primeiras instituições e organizações judaicas brasileiras.

As famílias sefaradis, econômica, social e culturalmente melhor situadas, procedentes de cosmopolitas cidades otomanas, acomodaram-se em bairros aprazíveis do Rio de Janeiro e São Paulo. Expressando-se em idioma próximo ao português, esses imigrantes rapidamente se acomodaram no meio social das médias e altas classes daquelas cidades, ligando-se aos negócios de importação e exportação de produtos como o café, cereais, frutas, tecidos finos, tapetes orientais e minerais, em especial por dominarem idiomas modernos, como o francês e inglês, aprendidos em colégios confessionais e nas escolas da Alliance Israélite Universelle, existentes em suas cidades de origem.

A II Guerra Mundial e a Shoá

Em busca de terras do petróleo do Oriente Médio, os nazistas estabeleceram-se no Norte da África, onde existiam antigas comunidades sefaradis. Os 400.000 judeus que viviam nas cidades de Marrocos, Argélia e Tunísia culturalmente diferenciadas, eram procedentes de diversas ondas migratórias que no século XIX passaram ao domínio colonial francês e espanhol. Na II Guerra Mundial, o Norte africano, área estratégica viu-se envolvido pelos nazistas e os aliados. Depois de ocupar a Tunísia, os nazistas construíram numerosos campos de trabalho forçado, para onde grande número de judeus foi encaminhado. Alguns ligados ao Movimento de Resistência foram encaminhados para campos de extermínio da Europa nazista. Um trabalho acadêmico francês mostra as “Listas de comboios de sefaradis que seriam encaminhados ao extermínio”. Felizmente, as forças nazistas não tiveram tempo e recursos para sujeitar as comunidades sefaradis aos objetivos antessemitas, expresso pela Solução Final do plano nazista de extermínio dos judeus.

Sefaraditas, refugiados da Europa e do Oriente Médio

Acabada a Guerra, sobreviventes judeus do Holocausto, saindo de uma Europa destruída pela guerra, chegaram ao Brasil pelo auxílio de entidades assistenciais judaicas internacionais.

Poucos anos depois, judeus de origem antiga, expulsos dos países árabes (Líbano, Síria, Iraque, Egito), incomodados com a instalação do Estado de Israel e, impedidos de se instalar em Israel emigraram para centros ocidentais, entre as quais, o México, Rio de Janeiro e São Paulo. Esses imigrantes destacam-se por proceder do mundo financeiro e bancário internacional.

As cidades do Rio de Janeiro e São Paulo tornaram-se a partir de 1930 polos de atração de emigrantes, refugiados do Nazismo e, embora tivessem entrada prejudicada pela política antissemita de Getúlio Vargas, instalaram-se nestas cidades citadas e em outras capitais brasileiras[3].

 

Sefaradis: contatos intergrupais          

Os primeiros contatos entre os diferentes grupos de imigrantes judeus em São Paulo não foram fáceis. No geral, ignoravam-se e, mutuamente não se reconheciam como pertencentes ao mesmo grupo étnico religioso. O idish, o ladino, o árabe e o hebraico dividiam esses imigrantes identificados pela fé e observância das milenares tradições judaicas. Embora a maioria não compreendesse as diferenças culturais, aos poucos, especialmente movidos pela necessidade da observância da dieta alimentar, sefaradis e orientais buscaram se aproximar dos asquenazis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: O LEGADO SEFARADI

A Profa. Anita Novinsky do Departamento de História da USP que reuniu grande acervo documental sobre a Inquisição e os cristãos novos no Brasil, expressa que: nos trezentos anos de presença sefaradi no Brasil, um princípio, um ideal, uma tradição subsistiu no período colonial, o da liberdade. A nostalgia da liberdade alimentou durante séculos a mente e o coração dos sefaradis. Nas páginas dos processos inquisitoriais encontramos sempre os lamentos da intolerância e, de sua sorte. A profa. insiste que na realidade, o principio da liberdade está encravado na essência do povo judeu, no âmago de seu ser.

Não se deve esquecer que a humanidade deve aos judeus a idéia de igualdade perante a Lei, tanto divina como humana e, a santidade da vida. A ética judaica é uma declaração de igualdade. Essas afirmações foram publicadas no II Confarad, realizado em São Paulo em 2002.

As históricas e contínuas dispersões dos judeus fizeram surgir personalidades complexas, divididas e culturalmente diferenciadas. Os imigrantes judeus, identificados pela religião e tradições culturais, apresentam-se solidários e identificavam-se no infortúnio de povo perseguido. Os que se instalaram no Brasil trouxeram, além das diferenças culturais, níveis diferenciados de instrução, de devoção religiosa, de postura política e de visão de mundo, circunstâncias determinantes de seu posicionamento no Brasil, apresentando-se ligados às origens étnico-religiosas e as instituições judaicas criadas. A miscigenação foi fato inconteste na história colonial brasileira, especialmente pela ausência de mulheres brancas e disso não se furtou o colonizador cristão novo que, comumente, se uniu a negras e índias.

Tentando encontrar na cultura brasileira, conteúdo herdado dos cristãos novos, o conhecido pesquisador Câmara Cascudo lembra alguns costumes, ainda prevalecentes no meio rural[4]. Aponta o abate de aves, sangrando-as e o resguardo familiar no luto, por exemplo, como práticas de influência judaica. Além de Câmara Cascudo, especialistas de estudos do “mental coletivo brasileiro” afirmam que, a “religião de verniz” ou “ir para a igreja sem convicção interior”, expressas por alguns, possam ter se originado no acomodado comportamento religioso dos cristãos novos no período colonial.

É importante lembrar que os imigrantes judeus que se instalaram no Brasil em diferentes momentos, vieram de forma aleatória e familiar, sem apoio governamental de seus países de origem, onde eram discriminados.

Hoje, uma população judaica de mais de 150.000, os judeus encontram-se na democrata e receptiva sociedade brasileira envolvidos em todos os setores da vida nacional: na política, nas instituições financeiras e bancárias, nas empresas, nas profissões liberais, nos meios científicos das universidades e na vida cultural brasileira.

[1] Couvre Feux – Biografia de Clarisse Nicordisky, escrita por Haim Vidal Sephiha. In, Yitshac Baer. Historia de los judios en la España Cristiana (II Confarad, São Paulo, 2002.

[2] Caneti, em 1981, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, com “Massa e Poder”.

[3] Maria Luíza Tucci Carneiro. Brasil, um refúgio os trópicos. Instituto Goethe e Estação Liberdade, São Paulo,1996.

[4] Luis da Câmara Cascudo.  Mouros, Franceses e Judeus. Três presenças no Brasil. Editora Perspectiva, São Paulo, 1984.

[*]rahel_mizrahi Autora de A Inquisição no Brasil: Um capitão-mor judaízante. São Paulo: C.E.J. da Universidade de São Paulo, 1984; Lembranças…..Presente do Passado. São Paulo: Hebraica e Smukler, 1995/96; Imigrantes judeus do Oriente Médio. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003 e, Do Mascate ao Empreendedor Uma família da antiga Mooca: São Paulo, copyright by M.Mizrahi, 2008.

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3 comments

  1. Desde Tenerife nuestro agradecimiento por recordar a Mencía Diaz de Clavijo hija del judeoconverso Alonso de Belmonte y madre del Apostol de Brasil José de Anchieta.
    La ciudad de San Cristobal de La Laguna,lugar del nacimiento de Jose de Anchieta recuerda a su madre con un plaza que lleva su nombre

  2. Debo rectificar mi comentario puesto que he afirmado que es Alonso de Belmonte el padre de Mencía de Clavijo cuando fue en realidad lo fué el judeoconverso Sebastian de Llerena esposo de Ana Martin de Castillejos

  3. Agradeço a publicação de meu artigo.

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