Há mais de 500 anos que os judeus foram expulsos ou submetidos a uma conversão forçada na Península Ibérica, mas a cultura sefardita resistiu até à atualidade e será celebrada esta quinta-feira num concerto marcado para a Casa da Música, no Porto

Esta quinta-feira, pelas 21h, as portas da Casa da Música (CdM) abrem-se para receber o concerto “Tradição e Modernidade – Tributo à nossa herança musical judaica”. O espetáculo de homenagem, dinamizado pela Comunidade Israelita do Porto, dá palco ao património cultural dos judeus sefarditas, expulsos da Península Ibérica (“Sefarad”, em hebraico) há mais de 500 anos, com uma forte repressão a partir de 1492 em Espanha, logo alastrada a Portugal quatro anos mais tarde.
Daqui saíram sem quase nada, mas levaram o ladino, idioma atualmente falado por aproximadamente 150 mil pessoas e capaz de agregar comunidades de todo o mundo a Portugal e Espanha, sendo uma mistura das versões medievais das línguas castelhana e portuguesa, incorporando palavras hebraicas e alguns apontamentos de turco. Até à atualidade, o ladino continua a assumir-se como uma língua franca, falada.
O idioma será o protagonista do recital na na Sala Suggia da CdM, no qual vão atuar a soprano Linet Saul, da Turquia, e a contralto Judit Rajk, da Hungria, interpretando várias peças musicais em ladino, acompanhadas pela Orquestra da ESMAE, dirigida pelo maestro António Saiote. “Metade do programa tem a ver com a música sefardita. A outra metade tem uma obra contemporânea [“Salm of the Distant Dove”], de Hugo Weisgall, escolhida por mim e que é a única obra escrita e dedicada à diáspora dos judeus sefarditas”, explica o maestro e clarinetista de 57 anos, para quem as reminiscências da herança judaica podem ser encontradas musicalmente no fado, no tango tocado no bairro La Boca, em Buenos Aires, ou nas canções de
Jacques Brel. Na opinião de António Saiote, o legado “está latente, embora não seja evidente”, notando que o fado “não tem apenas raízes árabes” e que, “muitas vezes, esquecemo-nos de que os judeus vieram para a Península Ibérica muito antes”.
Cinco séculos volvidos, os pedidos de naturalização por parte de descendentes de judeus expulsos de Portugal aumentaram exponencialmente, impulsionados por uma alteração da Lei da Nacionalidade em vigor desde 2015. São milhares e milhares de requerimentos. Chegam de mais de 50 países, e mais de 1000 judeus já conseguiram o reconhecimento da cidadania portuguesa. Muitos mudam-se para o nosso país em busca de melhores condições de vida, provenientes de nações onde as comunidades judaicas já gozaram de maior segurança, como a Hungria ou a Turquia. Outros chegam de Israel, como é caso de Shlomi e o filho Nativ, proprietários do restaurante kosher Bola Falafel, aberto recentemente no Porto.
A FUGA DO HORROR E A SOBREVIVÊNCIA NA SOMBRA DA INQUISIÇÃO
2 de janeiro de 1492: a capitulação do Reino de Granada foi apresentada e as chaves do Palácio de Alhambra foram entregues aos Reis Católicos, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, unidos em matrimónio. A unificação política de Espanha estava quase conseguida, com a exceção do Reino de Navarra. Os mouros tinham sido expulsos e a perseguição virava-se agora para os judeus. Dois meses mais tarde, a 31 de março, era assinado o édito de Alhambra, decretando a conversão forçada ou a expulsão da população judaica dos territórios espanhóis.
Os números são incertos, mas estima-se que aproximadamente 100 mil judeus se tenham deslocado para Portugal, duplicando o número existente no nosso país durante o reinado de D. João II.
O monarca português morreu em 1495, sendo sucedido pelo primo e cunhado D. Manuel, com pretensões a assumir também o trono castelhano, pedindo para isso em casamento D. Isabel, a filha viúva dos reis católicos de Castela e Aragão. A condição que chegou do outro lado da fronteira era a expulsão ou conversão de todos os judeus e mouros do território português. Em entrevista ao Expresso, Michael Rothwell, professor e membro da Comunidade Israelita do Porto, frisa que “os judeus tinham vivido de forma relativamente pacífica durante os séculos da primeira dinastia em Portugal, ocupando funções de relevo, como conselheiros e médicos do rei”.
Em 5 de dezembro de 1496 foi decretada a expulsão dos judeus portugueses, que para evitarem o desterro teriam de se converter num período de quatro meses. Os que saíram viajaram sobretudo para o Norte de África, para o Império Otomano ou para países da Europa Central,
sobretudo para a Holanda, mas também para a Alemanha e Inglaterra. Alguns, mais tarde, atravessaram o oceano em direção à América do Norte.
Os que ficaram em Portugal foram obrigados a uma conversão forçada pela Inquisição, praticando o judaísmo de forma secreta. São os chamados “marranos” ou cripto-judeus, que ao longo de vários séculos fintaram a Inquisição e a intolerância religiosa, ocultando as práticas
religiosas, como é o caso da comunidade de Belmonte, no distrito de Castelo Branco, onde a presença dos judeus se manteve desde a Idade Média. “Embora a Inquisição tenha terminado em 1821, só com a implantação da República é que passou a ser legal um cidadão português
praticar uma religião sem ser a católica”, explica Michael Rothwell, judeu britânico de 63 anos, radicado na Invicta há 35.
UMA PEQUENA COMUNIDADE COM A MAIOR SINAGOGA IBÉRICA
A Comunidade Israelita do Porto, fundada em 1923 pelo capitão Barros Basto, um herói da Primeira Guerra Mundial, conta atualmente com apenas 250 membros, mas é na cidade que fica localizada a maior sinagoga ibérica. Chama-se Sinagoga Kadoorie – Mekor Haim e foi construída entre 1929 e 1938, sendo a última a ser edificada na Europa antes da Segunda Guerra Mundial. Possui uma arquitetura “art déco”, de cariz modernista e com elementos hispanoárabes, adornada com 20 mil azulejos pintados à mão. No centro da monumental sala de orações,
coberta por uma cúpula de betão armado, fica a bimá, a plataforma elevada onde é lida a Torá, retirada da arca (Aron) virada a preceito para Jerusalém.
“Ultrapassa largamente as necessidades da Comunidade Israelita do Porto, mas o capitão Barros Basto pretendia que a sinagoga servisse como uma ‘fonte de luz’ para todas as comunidades judaicas no Norte”, conta o professor e dirigente da comunidade judaica portuense, composta por elementos de 20 nacionalidades diferentes e com distintas práticas religiosas. Os judeus podem ser divididos em dois grandes grupos: sefarditas, de origem ibérica, ou anesquazes, provenientes do centro e do leste da Europa.
Nas instalações da sinagoga funcionou também um colégio interno, onde ainda pode ser visitada uma das salas de aulas, com as carteiras de madeira e mapas dos anos 1920 penduados nas paredes, nos quais o estado de Israel ainda não aparece. Entre 1927 e 1958, a sinagoga serviu igualmente de “redação” para o jornal comunitário “Ha-Lapid”, publicação que chegava aos quatro cantos do mundo e que ainda pode ser encontrada em várias bibliotecas internacionais.
Se a conversão para o judaísmo é um processo bastante complexo, visitar a sinagoga do Porto é bastante acessível, com as portas abertas de segunda a sexta-feira, entre as 14h30 e as 17h. As visitas orientadas incluem o núcleo museológico inaugurado em 2015, onde se encontra uma biblioteca com 3 mil livros, sendo o mais antigo de 1623. Ali pode também ser vista uma lista com os nomes de sensivelmente 900 judeus, perseguidos e mortos na cidade. “É uma lista
relativamente pequena, quando comparada com outros pontos do país”, explica Hugo Vaz, diretor do Departamento de Visitas da Comunidade Israelita do Porto, acrescentando que “a vítima mais jovem foi um rapaz de 10 anos e mais velha foi uma senhora de 102 anos”.
ANDRÉ MANUEL CORREIA
Fuente: Expresso
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