Um novo Milagre

Há cerca de 1 ano a região sudeste conta com duas sinagogas regulares com presença significativa ou predominante dos Bnei Anussim, como são referidos os descendentes dos judeus sefaraditas forçados a aceitar a conversão católica durante o período de inquisição na península Ibérica e também no Brasil. Estas pessoas seguem regularmente uma vida religiosa, com orientação dentro de suas comunidades enquanto aguardam o reconhecimento de retorno à fé judaica. Somando-se à outros que tendo seguido procedimento ortodoxo dentro da Halachá já contam entre o povo judeu.
Politicamente ocorrem divergências tanto aqui como em outros locais da diáspora e até mesmo em Israel a respeito destes processos.
Religiosamente, nestas sinagogas, um grupo cada vez mais familiar e em conformidade com as tradições sefaraditas, apesar das dificuldades sócio-econômicas e política que temos vivido, comparecem com mais alegria e menos timidez, com mais esperança e maior sentimento de pertencimento. Com mais confiança e transparência: sem segredos.
Na frequência destas sinagogas a busca pela identidade cultural não conta mais apenas com os relatos tristes de antigas histórias familiares de perseguição, mas com a participação ativa destes membros em suas comunidades com apoio mútuo.
Estamos vivendo um novo momento. Estes indivíduos estão vivendo o judaísmo em suas famílias, sinagogas e vida pública. Abertamente se declarando judeus. Estudando e crescendo espiritualmente. Exportando para as vivências sociais, aquilo que a Lei Mosaica norteia como realidade de vida, vida pública e prática. Estão reconstruindo suas vidas a partir do resgate de suas identidades.
E é assim mesmo que deve ser. Atitudes. Deles mesmos e por eles mesmos.
Houve um momento para se revelar o oculto. Ao longo dos últimos anos , muitos demonstraram a existência histórica das raízes judaicas na colonização do Brasil e da aflição que pesa nos corações daqueles que, sim, mesmo após 500 anos, ainda buscam uma porta para onde dirigir suas expectativas.
Há um momento para estendermos a mão e facilitarmos uma caminhada. Pois se a história e a ciência (DNA), já comprovaram o fato, o que detém o percurso de retorno destas pessoas? Politica? Se halachicamente estas pessoas necessitam de orientação e procedimentos religiosos ortodoxos precisos e é desejável um local onde isto ocorra, então que dignamente assim seja feito.
E há um momento para apreciarmos a visão de caminhantes ao longo de uma vereda. O momento de se contar histórias, registra-las e comprova-las já faz parte da história recente, mas passada, dos Bnei Anussim. O cenário atual é a caminhada que estes, por eles mesmos estão fazendo, recebendo individual ou coletivamente o apoio esperado à todo membro do povo.
Autora: Dra. Elisa Pinto Guimarães

Presidente da Congregação Judaica Pneior

Um novo milagre
Desde que os arquivos da inquisição na Torre do Tombo foram revelados há mais de 30 anos pela historiadora Anita Novinsky, foi preciso 500 anos em nosso país para acontecer um novo milagre. E este milagre se chama “o retorno dos filhos dos forçados” ao povo judeu.
Mas agora, toda esta exposição através da mídia internet e dos meios acadêmicos traz uma nova realidade.
A comunidade judaica organizada vê ainda com desconfiança e não está preparada para receber estes novos judeus que reivindicam suas origens semitas através desta herança histórica muito pouco conhecida em nosso país.
A resistência de vários líderes religiosos no Brasil em reconhecer este novo fenômeno que devagar e sempre tem aumentado a procura por várias pessoas que se identificam com a fé judaica, não tem precedente em nenhum outro país.
No ano passado foi fundado no Rio de Janeiro a primeira sinagoga de judeus sefaradi convertidos pela lei judaica com origem ibérica, fruto deste milagre, reivindicando seu próprio espaço e o resgate de suas tradições que ainda permanecem nas sinagogas sefaradi de Amsterdam, Londres e Turquia.
As tradições, os ritos e as canções em ladino tem sua particularidade quando algumas diferenças são apresentadas nas rezas que são realizadas com muita propriedade e intensidade no shabat.
O Brasil não tem uma liderança religiosa similar a um gran rabino como ocorre nos países na França e Inglaterra ou nos EUA onde existem várias vertentes dentro do judaísmo. Apesar de Israel ter sua própria liderança expressiva que influencia mundialmente as comunidades de todos os países, aqui seguimos rigorosamente as determinações que são realizadas em Israel que não tem ainda conhecimento desta nova realidade, onde várias pessoas reivindicam suas origens judaicas baseado em seus antepassados que sofreram com a inquisição.
Como Israel não é um país laico e a religião tem grande influência na sociedade com aproximadamente 70% da população de judeus, as leis aplicadas neste país se confundem com questões básicas no dia a dia do judeu aqui no Brasil, determinando assim uma orientação fora de nossa realidade.
Um bom exemplo disto, é o programa chamado Aliah que é orientado pela agencia judaica que incentiva o retorno de judeus de outros países para Israel, porem este programa tem um incentivo financeiro do governo e ao mesmo tempo, as determinações internas de um dos cinco rabinatos que existem e que é responsável por esta autorização, não reconhece outras vertentes do judaísmo, tais como reformista e conservadora que representam a grande maioria dos judeus no exterior. Além disto, se um judeu for convertido por um rabino ortodoxo em qualquer pais, terá o mesmo problema que os judeus de outras vertentes assim reconhecidas.
Este conflito político religioso é totalmente incompreendido pela maioria dos judeus que não entendem que conversões são de natureza estritamente religiosa através de um rabino e sua comunidade e não um processo de uma minoria qualificada impondo uma determinação política e assim influenciando a rejeição, indiferença e até discriminação, principalmente por parte da maioria dos rabinos estrangeiros que vivem no Brasil e que não conhecem ou se interessam pela nossa história.
Como o rabinato de Israel somente autoriza conversões religiosas assim denominadas ortodoxas para que um judeu de outro pais possa viver como cidadão pleno neste país, esta política se choca com muitos judeus que se converteram em outras vertentes mais atualizadas no atual contexto, que muitos acreditam ser mais contextualizadas na vida moderna. Nenhuma conversão é reconhecida pelo rabinato fora de Israel, exceto poucos rabinos que estão numa lista de vários países através do site. www.itim.org.ils
Desde 2013 por uma determinação da suprema corte de Israel as conversões ditas reformistas e conservadoras foram autorizadas para o programa de Aliah, ou seja, o retorno dos judeus, porem em contraponto com a política do Estado, não são reconhecidas religiosamente pelo Rabinato de Israel que tem entre outras prerrogativas a autorização para casamentos, enterros, divórcios, etc.
O melhor exemplo é se um cidadão não judeu emigrar para Israel recebera um documento de identidade com a menção de cidadão israelense, porem o status de religião que consta neste documento ficará em branco se nada for declarado. O mesmo se aplicará para o judeu reformista, conservador e até ortodoxo convertido em qualquer outro país que são as vertentes principais do judaísmo assim reconhecidas por um grupo de judeus. Um detalhe importante é que a maioria dos judeus de origem sefaradi não reconhecem estas vertentes assim determinadas pela política do rabinato de Israel.
Outra grande confusão, é que muitos acreditam que o judaísmo tem algum tipo de hierarquia em Israel ou em outro país através de suas lideranças religiosas, o que não é verdade. Estas injunções de poder politicas religiosas são um fenômeno muito recente, pois antes da criação do Estado de Israel não existia nenhum tipo de rotulo ou interferência na vida de cada judeu que ali já vivia, assim como, em vários outros países, onde os judeus eram maioria que estavam há muito tempo vivendo com suas tradições e diferenças.
O milagre também da sobrevivência dos judeus até os dias de hoje é que por não existir um poder central a relação ficou sempre entre a sinagoga, rabino e comunidade com sua independência e tradição.
O grande desafio vem das políticas internas praticadas e de interesse de Israel e adotadas cegamente aqui no Brasil pelas autoridades religiosas e suas lideranças, que tem medo de adotar suas próprias políticas de flexibilização para reconhecer e converter estes novos judeus em tempos difíceis e de grande confusão como está ocorrendo na Europa e EUA, onde o aumento do antissemitismo tem sido uma preocupação para a grande maioria dos judeus que vivem na diáspora e a crescente emigração para países que representam um pouco mais de segurança.
Em nosso país, com a crise econômica se estendendo por mais tempo e consequentemente com o aumento de judeus indo para outros países, as sinagogas tem experimentado uma diminuição considerável em suas comunidades, indo na contramão deste novo milagre que são os judeus sefaradis de origem ibéricas ou pessoas identificadas com a fé judaica surgindo em vários pontos no Brasil, buscando com independência uma saída e escrevendo a sua própria história como era antes da criação do Estado de Israel.
O final desta história já está escrito, pois não haverá nenhuma injunção política de terceiros que impedirá este povo retornar as origens dos seus antepassados distantes à época da inquisição, muito menos uma porta fechada determinado por um grupo de religiosos que se sustentam deste poder e estão cegos em reconhecer esta nova realidade no Brasil.
Assim como o milagre de Moises que levou o seu povo por 40 anos a terra prometida para que uma nova geração aceitasse as leis de Deus, será que os descendentes convertidos ou retornados pela lei judaica assim denominados “filhos dos forçados” terão também que esperar uma nova geração de judeus da comunidade organizada para ter este reconhecimento?
Autor: Sérgio Sobreira
Editor de “O Inquisitor” e Vice-Presidente da Congregação Judaica Shaarei Shalom .

Fuente: oinquisitor.com.br

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One comment

  1. Elza Roxana Álvares Saldanha

    PARABÉNS. Eu sou pernambucana de Recife, minhas famílias todas descendentes dos judeus que vieram de Portugal. Obrigada!

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