
No final de novembro de 1999 o Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ realizou seu Segundo Encontro Brasileiro. Por sugestão, na realidade, quase uma imposição, da Professora Rachel Mizrahi, da USP, eu já andava atolado até o pescoço realizando minuciosa pesquisa sobre a coletividade sefaradi do Rio Grande do Sul, de onde minha família é originária.

Era um trabalho de formiguinha, que exigiu mais de uma ida a Porto Alegre para consultar os arquivos do Instituto Marc Chagall e a leitura do Livro de Atas do Centro Hebraico Riograndense, que se orgulha em ser a única Sinagoga Sefaradi do Sul do Brasil.
Por sorte, tanto os arquivos do Marc Chagall, por sinal uma instituição modelar, quanto o Livro de Atas do Kal, como chamamos, carinhosamente, nossa Sinagoga, registravam entrevistas e informações preciosas sobre os primórdios da presença sefaradi no Rio Grande do Sul. Muito me auxiliaram, também, as pesquisa realizadas por meu tio Aron Menda, Z”l e o escritor, colega e amigo Moysés Eizirik, Z”l. O Livro de Atas do Centro Hebraico, cujas páginas iniciais mesclavam o português com o ladino, encontrava-se em bom estado de conservação e registrava todas as Assembléias da coletividade, inclusive as que precederam à própria fundação da Sinagoga, em 8 de Outubro de 1922. Concluída a pesquisa e redigido o texto era preciso inscrevê-lo, obviamente, em uma das mesas sobre temas sefaradis do evento da UERJ. Para minha surpresa, descobri que não existia tal mesa. Surpresa que deu lugar ao espanto, pois nunca tinha havido uma mesa, em ocasiões anteriores, com trabalhos que enfocassem, especificamente, a coletividade judaica de origem mediterrânea. Ou seja, a cultura e a tradição dos judeus de origem ibérica e oriental, por sinal riquíssima, estava confinada aos ambientes de oração. Não adiantava constituirmos praticamente a metade das congregações do Rio e de São Paulo e a maioria absoluta das de Manaus e Belém.

Enquanto não divulgássemos nossa existência para o restante da coletividade judaica e a própria sociedade maior, só existiríamos, do ponto de vista prático, para nós mesmos. E isso não era o bastante em uma sociedade que se vangloriava de estar vivendo a era do conhecimento e assistindo, meio sem entender direito, aos primórdios da revolução provocada pela Internet. Solicitei – e fui atendido – à organização daquele encontro a realização de uma mesa dedicada à temática sefaradi. A qual compareceram, a bem da verdade, meia dúzia de gatos pingados. Mas gatos importantes e com intensa atividade comunitária. Face à relevância da presença sefaradi na história do povo judeu e à quase total ausência de trabalhos acadêmicos, à época, sobre o tema, cheguei à conclusão de estava mais do que na hora de realizarmos um Congresso Sefaradi. Diane Kuperman, a quem fui apresentado na ocasião, dinâmica ativista comunitária, me procurou após a palestra e disse que a sugestão era oportuna. Para viabilizá-la, segundo ela, era preciso conquistar o apoio de uma importante liderança comunitária, a do Sr. Alberto Nasser.

Se conseguíssemos convencê-lo, transformaríamos em realidade o que, até então, parecia um sonho distante. Nasser abraçou a idéia desde a primeira hora e começou a organizar reuniões-almoço em seu escritório do Edifício de Paoli, no centro do Rio, para as quais eram convidadas lideranças das diferentes entidades sefaradis da cidade, juntamente com seus Rabinos. Estava formado, a partir daquele momento, o Conselho Sefaradi, presidido, na atualidade, pelo líder comunitário Samuel Benoliel.
Nossa proposta seria a de aproveitar o modelo dos congressos médicos, a que assistia com regularidade, para montarmos um programa que reunisse, em um mesmo evento, mesas de temas livres, fóruns com assuntos específicos sobre a cultura e a tradição sefaradis e palestras a cargo de nomes de prestígio da coletividade. Começamos, então, a organizar a programação do Primeiro Congresso Sefaradi do Brasil, que recebeu o sugestivo nome de Confarad.
Esse Primeiro Confarad foi realizado em Novembro de 2000 no Atlântica Business Center, que acabara de ser inaugurado e que recebeu, além de amplo destaque no noticiário da grande mídia, numeroso e selecionado público.

E não era para menos. Jairo Fridlin, da Editora Sefer, de São Paulo, praticamente transferiu para o Rio o acervo completo de sua livraria. Do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, acompanhada pela Arqueóloga Rhoneds Perez, veio a Torá mais antiga do mundo.
Tinha pertencido ao Imperador Pedro II e foi exposta ao lado de outras relíquias da cultura judaico-sefaradi. Da Espanha chegou o músico e cantor Paco Díez, especialista no cancioneiro medieval sefaradi em ladino.
A Professora Anita Novinsky, da USP, trouxe de São Paulo um time completo de pesquisadores acadêmicos, que encantou o público com sua erudição e cultura. Ficamos sabendo, na ocasião, que o Brasil havia sido descoberto e povoado por cristãos-novos, muitos dos quais tinham mantido, secretamente e por razões de sobrevivência, sua condição judaica.

Contamos, nesse Primeiro Confarad, com a realização do Primeiro Fórum de Rabinos Sefaradis, com grande afluência de público.
O primeiro Confarad, logo seguido pelo segundo, realizado na cidade de São Paulo, serviu tanto para resgatar a tradição dos judeus de origem mediterrânea quanto aproximar pessoas e entidades.
Estamos agora em plena realização, no Rio, de 28 de abril a Primeiro de Maio, no Clube Israelita Brasileiro, CIB, em Copacabana, da oitava versão do Confarad. É a prova inconteste de que estávamos no caminho certo. O Congresso Sefaradi já está sendo considerado um dos grandes eventos da cultura judaica não só do Brasil, mas de todo o mundo.


No conclave ora em realização contamos com as honrosas presenças do Embaixador de Israel no Brasil, Rafael Eldad, do Cônsul no Rio de Janeiro, Osias Wurman e de Professores de prestigiadas instituições de ensino, como Margalit Bejarano, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Do Dr. Mario Cohen, Presidente do Cidicsef, da Argentina, dos idealizadores e editores do E-Sefarad , Liliana e Marcelo Benveniste, também da Argentina, que irão transmitir o evento, via Internet, ao vivo e em tempo real, para todo o mundo, bastando clicar em https://esefarad.com/?page_
Da ativista e pesquisadora Karen Sarhon, do Centro Sefaradi Otomano de Istambul, do Presidente da Fesela Continental, Sr. Sabeto Garazi, de Miami. E também de Marcel Israel, dirigente das Comunidades Judaicas da Bulgária. Dos Diretores da Casa Sefarad-Israel e da Rede de Juderías, da Espanha, assim como de destacados músicos, Rabinos e Hazanim (cantores litúrgicos), ao lado da nata da cultura judaica brasileira. Liliana Benveniste, cantora e pesquisadora argentina, dará um recital de música sefardita tradicional e nova na noite de abertura, e seus outros shows estão programados durante o CONFARAD. Para conferir o programa basta acessar aqui >>
Doze anos após a realização do Primeiro, podemos dizer, com uma ponta de orgulho, que o Oitavo Confarad é a prova cabal do interesse pela cultura e tradição sefaradis, parte integrante e indissolúvel de nossa herança judaica comum.
Nelson Menda
Miami – EUA
eSefarad Noticias del Mundo Sefaradi