Terra prometida. A história dos judeus portugueses que fizeram a 1.ª aldeia global por Catarina Maldonado Vasconcelos

Foram expulsos da Península Ibérica, mas mantiveram o ladino como língua e a cultura portuguesa como referência. Esta é a história de um amor desencontrado, mas agora, para muitos, é tempo de voltar a casa.

Carolino Tapadejo terá recebido entre 35 e 50 mil pessoas em 30 anos, a maior parte da religião judaica. Os peregrinos da saudade vêm de mais de 50 países e chegam ali, à vila alentejana de Castelo de Vide, que abraça a Estremadura espanhola. As casas baixas, de fachadas brancas, fazem cerco ao castelo medieval, e o sol beija a vegetação abundante, onde também a saudade tem raízes profundas.

É uma sina que se cumpre pelas ruas estreitas do vilarejo, até fazer desaguar a nostalgia numa fonte carregada de simbolismo. Cai a água corrente sobre o mármore branco e frio e, embalado pelo rumor daquele líquido usado para batizar à força centenas de judeus séculos antes, Carolino Tapadejo, antigo autarca e descendente de cripto judeus, lembra a escolha difícil destes antepassados, encurralados entre a conversão ao cristianismo e a saída do reino. «Baixavam da judiaria, eram batizados em grupo. Não sabemos quantas pessoas seriam de cada vez. Depois tinham de sair da judiaria. Não podiam voltar porque já eram cristãos. E o rei D. Manuel violentou também os cristãos-velhos que viviam fora para trocarem a casa com os outros. Assim, cristianizava a judiaria, enviando para lá famílias batizadas.»

Findava assim a paz, conquistada durante a época do domínio muçulmano. «Em especial a partir da época islâmica, no século VIII, há um são convívio entre judeus e muçulmanos. Pode até dizer-se que há uma relação que promove um expoente cultural e científico, que, depois, vai ser continuado em grande medida pelos reis portugueses quando se dá a reconquista cristã», explica à TSF Paulo Mendes Pinto, embaixador do Parlamento Mundial das Religiões.

Durante a I Dinastia, não houve ainda notícia de «situações complexas na relação entre cristãos e judeus» mas, em 1496, com o casamento entre D. Manuel I e a rainha espanhola e católica D. Isabel, o antissemitismo e o medo atiraram os judeus sefarditas para uma vida de secretismo. O édito espanhol de expulsão já tinha obrigado mais de cem mil pessoas de origem judaica a abandonar o reino vizinho quatro anos antes. Estes judeus vieram a somar-se aos cem mil já existentes em Portugal.

Na sombra de uma vida dupla

Comer borrego em vez de porco, orar às sextas-feiras à noite, quando começava o sabat – período de descanso e reflexão do judaísmo -, não trabalhar aos sábados, casar pela lei de Moisés antes de se dirigirem à igreja. Os judeus passaram então a viver uma vida dupla, em que os rituais cristãos ficavam para a esfera pública, e as práticas judaicas se continham por detrás de uma porta fechada. O ocultismo vingou. De geração em geração passaram pistas deste segredo coletivo que se carregava com um misto de opressão e cumplicidade.

«Todos os dias à tarde uma das mulheres mais velhas regava a base da tulipa da fonte. Perguntando-lhe por que o fazia, ela respondia-lhe que tinham de ter sempre a tulipa regada para que nunca secasse. A memória. Para que não se perdesse a memória. E conservar a identidade. Hoje são judeus de todo o mundo que regam a tulipa quando aqui vêm. E por estas ruas abaixo quantas emoções contidas, a quantas lágrimas vertidas eu tenho assistido…» São recordações que Carolino Tapadejo, nascido em 1947 no seio de uma família de ferreiros, decidiu honrar, com a musealização da pequena sinagoga da vila alentejana e o estudo das marcas deixadas na pedra dos umbrais das portas.

Aponta em frente, o braço a desenhar a vastidão do que quase vê só por imaginar. «No princípio do século XVI, tudo o que está aqui era campo. Não havia casas. Esta tem três sinais: o do meio não engana ninguém, é a cruz de Cristo; a outra parece uma estrela-do-mar mas é a estrela de David em relevo, disfarçada. A outra da direita é um pão dividido em seis partes. Isto servia para dar um sinal aos que vinham durante a noite de que era aqui que podiam entrar. Depois, dentro destas casas, havia um labirinto. Mais tarde, como cristãos-novos, a Inquisição instalou-se na casa em frente para os controlar.»

A lista das vítimas da Inquisição avolumava-se, e a perseguição sentenciava que os judeus sefarditas teriam enfim de se despedir de uma geografia mística, de que guardavam memórias felizes e de prosperidade: Sefarad. O resultado foi a criação de uma extensa diáspora pelo mundo. «Nós podemos gostar ou não gostar da aldeia global. O que é facto é que a primeira aldeia global foi feita por portugueses. O Martin Page escreveu ‘the first global village’, em português, a primeira aldeia global. Os portugueses, quando foram para a diáspora, a fugir a perseguições, criaram a primeira aldeia global. O caso mais conhecido foi Garcia da Orta, que embarcou rumo a Goa, donde não mais voltaria. Como diria o padre António Vieira, pouca terra para nascer, muita terra para morrer…»

O antissemitismo do século XX

Os cripto judeus, nome dado aos que foram obrigados a converterem-se, foram vítimas do estigma mesmo já no século XX, quando, de acordo com Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, «a estrutura da Igreja Católica, nomeadamente os párocos que estão no interior do país, têm a liberdade de fazer práticas antissemitas de tal maneira que se cria, não um constrangimento legal – não há nenhuma lei que proíba, não há nada escrito -, mas um constrangimento social».

No «campo da informalidade», este constituiu o «o último golpe no cripto judaísmo português», como fundamenta o professor. A história é apenas contrariada com o exemplo da sinagoga do Porto, a maior da Península Ibérica, designada Kadoorie – Mekor Haim, o que significa «fonte de vida». O lugar de culto foi o único edifício da religião judaica inaugurado na Europa, em 1938, um ano dramático para os judeus, já que o antissemitismo atingiu proporções violentas durante a noite de cristal da Alemanha nazi.

Reza a história judaica que o militar Barros Basto foi o responsável pelas primeiras sementes deste núcleo. Guiado pela motivação de fazer retornar ao judaísmo as famílias de cripto judeus/ marranos que tinham sido forçadas à conversão a partir de 1496, em plenos anos 20, enfrentou a dificuldade de criar pontes entre as várias aldeias remotas de Portugal. Uma tarefa hercúlea, segundo conta Michael Rothwell, da direção da Comunidade Judaica do Porto.

Alguns jovens foram trazidos para a cidade para se tornarem líderes comunitários, depois de uma jornada penosa: «Não havia estradas, e ele ia a cavalo. Foram muito difíceis as viagens e as conversas com os cripto judeus, que por natureza escondiam a sua religião.» Hoje Michael Rothwell abre as portas à comunidade judaica espalhada pelo mundo. E nem mesmo a língua se impõe como obstáculo. «Isso é que é extraordinário. A cultura sefardita manteve-se. Não só se manteve como havia orações em português. A língua ladina, português e espanhol, foi levada pelos quatro cantos do mundo.»

As vozes judaicas dos «nossos egrégios avós»

Sem nunca terem posto os pés em Portugal, conhecem a língua da saudade. Foi também isso que constatou o rabino Eli Rosenfeld quando chegou a Lisboa, no verão de 2006. Portugal vestia as cores da bandeira das quinas pelas ruas, coloridas também pelos cânticos e por conversas poliglotas, e Luís Figo e Pauleta abandonavam a Seleção à qual já tinham dado tantas alegrias. Eli Rosenfeld era, nessa altura, um estudante enviado para Lisboa, motivado para viver aquele que acreditava ser «apenas um verão de aventuras».

A quipá na cabeça era um símbolo seguro de interculturalidade, como o eram as camisolas italianas, as azuis e vermelhas de França ou as com tons amarelos, vermelhos e pretos da Alemanha. O «tipo de Brooklyn», de 22 anos, rendia-se então a um Portugal que o «chamava» e onde veio a cimentar muitas amizades.

Mas o que mais surpreendeu o norte-americano foram as pistas surpreendentes sobre um passado judaico tão cheio. «Eu vim para cá com algum conhecimento de que havia alguma História judaica neste país. Sabia que tinha havido um rabino muito conhecido chamado Isaac Abravanel. Sabia que o criador do movimento Chabad no mundo só tinha sido salvo da II Guerra Mundial e do Holocausto por ter passado por este país. Sabia que havia um passado coletivo de uma vida judaica. Eu aprendi, no entanto, que, não só Portugal tem a mais rica tradição judaica, como foi um dos territórios judaicos mais importantes do mundo.»

«Vozes Judaicas de Portugal», o livro que publicou juntamente com Shlomo Pereira – rabino português que fez o caminho inverso, e foi viver para os Estados Unidos – compila as histórias seculares do judaísmo em território nacional. «Não há histórias destas em nenhum outro lugar do mundo», assevera Eli Rosenfeld. Em torno de documentos que recolheu durante anos de pesquisa, o norte-americano radicado em Portugal não se cansa de sorver, em hebraico ou em ladino, as memórias que outros antes de si deixaram.

Eli Rosenfeld chegou a uma lista que inclui 40 rabinos que viveram em Portugal durante o período anterior e imediatamente subsequente à chegada da Inquisição. «Os judeus portugueses realmente tiveram um impacto no mundo como nenhum outro grupo na História. Muitas sinagogas de vários países foram planeadas e construídas por portugueses. A primeira sinagoga nos EUA foi construída por um judeu português», explica o rabino que acredita ser este um legado universal para «todos os judeus espalhados pelo mundo».

«Com o tempo, percebi que, não só Portugal tem alguma história judaica, como tem a mais espantosa tradição judaica, literatura… Portugal foi, durante um certo período, um dos pontos mais importantes da religião judaica no mundo. Muitas pessoas viveram aqui uma vida muito bonita», considera.

Sefarad, uma terra mística

O que Eli Rosenfeld pôde concluir foi que a consciência histórica e a ligação à terra primordial nunca abandonaram os judeus sefarditas. Séculos depois do édito de expulsão, ainda trocam o hebraico pelo ladino e o documento de identificação por um passaporte de volta a casa. «Mesmo as pessoas que tiveram de sair de Portugal sempre se sentiram portuguesas. E as sinagogas portuguesas em todo o mundo, durante séculos, continuaram a conduzir as cerimónias religiosas em português. Havia uma grande ligação a casa, onde viveram durante centenas de anos. Na possibilidade de as pessoas voltarem a ligar-se a este território… Isto não é sobre ter outro passaporte. ‘É a minha família a voltar a casa.'»

Paulo Mendes Pinto explica esta nostalgia do passado. O embaixador do Parlamento Mundial das Religiões frisa que «a Sefarad ficou como um mito de uma terra de esperança, uma terra onde foram felizes, onde não foram perseguidos, onde houve prosperidade, onde houve possibilidade de diálogo, fundamentalmente na época islâmica, mas também durante a I Dinastia». E isso ficou marcado na mentalidade e na cultura destas famílias. «Para muitos judeus sefarditas, quase podemos dizer que o fim da História não é Jerusalém. O fim da História passa por Portugal e Espanha.»

Três a quatro milhões de pessoas em todo o mundo descendem destes milhares de judeus expulsos da Península Ibérica. Esta é a história de um amor desencontrado, em que cabem muitas lágrimas. No livro «O Último Cabalista de Lisboa», de 1996, o escritor judeu Richard Zimler mergulha neste passado que diz ser tão «maravilhoso» quanto «dramático». «A terra prometida para os judeus sefarditas que viviam no Brasil, na América do Norte, na Índia, não era Israel nem a Palestina. Era Portugal e Espanha. É uma história de grande tristeza, de grandes saudades, na literatura sefardita. Muitos poetas escreviam sobre as saudades que sentiam para Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Évora, Lisboa, Porto.»

Esses capítulos foram inundados em lágrimas. Esperança de retorno ou testemunho nostálgico, as chaves de casas que já nem existem continuam a alimentar o imaginário. O passado que pode voltar é visto como o paraíso para finalmente levar uma vida sem lamentos. Carolino Tapadejo socorre-se das palavras de Saramago para justificar esta sina de voltar a casa. «Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.»

«Estive a dar uma palestra numa universidade a norte de Telavive. Quando já estava a sair do palco, uma das senhoras, já idosa e muito doente, disse-me, num ladino muito alterado: ‘Eu sou de Castelo de Vide, mas eu nunca lá fui.’ Eu disse-lhe que não tinha compreendido, e ela respondeu-me: ‘A minha família fugiu de Castelo de Vide, na primeira metade do século XVI, para o Império Otomano; Constantinopla, depois Istambul, mas sempre me disseram que a minha terra era Castelo de Vide. Eu vi que vinha cá um homem da minha terra-mãe, e quis vir ouvi-lo.'» A castelo-vidense, deslocada em geografia mas nunca em identidade, percorreu mais de 170 quilómetros, porque não tinha descendentes, estava com cancro e só queria voltar a casa.

Voltar a casa

Foi em 2015 que se fechou o último capítulo de um livro há tanto tempo guardado nas prateleiras do legado familiar. Chegada a Castelo de Vide, «a senhora depositou nas minhas mãos a chave medieval e os nomes da rua e de umas vizinhas». Guardião da casa e da História dos seus conterrâneos espalhados pelo mundo, Carolino Tapadejo afiança: é a primeira vez que uma chave daquela época retorna à porta que em tempos abriu.

Pouco se sabe sobre o contributo dos judeus sefarditas na construção da História de Portugal. A ausência sentida nos manuais escolares oculta, por exemplo, que as primeiras tipografias eram judaicas, e que os judeus, mais letrados do que os restantes, não só imprimiram os primeiros livros em território nacional, como tratavam das Finanças do reino. Mas este silêncio tem os dias contados, considera Richard Zimler. «Foi um tabu, um silêncio quase total. E agora, uma curiosidade enorme. As pessoas querem saber mais. Querem reconhecer a possibilidade de ter antepassados judeus na árvore genealógica. É uma transformação – eu acho – muito feliz e muito importante, uma evolução da psicologia portuguesa.»

Assim como Eli Rosenfeld anda com a quipá (símbolo do temor a Deus) na cabeça, também José Oulman Carp, presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, acredita que o judaísmo pode e deve ser celebrado em território nacional. Portugueses, judeus, comerciantes, engenheiros e artistas, devolveram a diversidade religiosa e cultural ao país. «Cada pessoa é uma planta de estufa. Precisamos de luz, de água, de terra. Temos de cuidar uns dos outros, sobretudo quando somos uma comunidade tão pequena. Ser presidente da comunidade foi como ser um jardineiro que cuida desta página da História do judaísmo.»

Além das sinagogas, Eli Rosenfeld acredita ser fundamental a criação de um centro chabad, dedicado ao estudo do legado judaico, que vai nascer em Cascais. «A nossa ideia é criar um centro para a vida judaica dedicado à aprendizagem. Será focado, não só na História, mas em como ela nos ensina, e em como o passado pode ajudar-nos no futuro.»

Depois de séculos de negação, a tradição judaica pode voltar a ganhar a intimidade dos vizinhos próximos. Portugal, terra prometida, já recebeu 40 mil pedidos de nacionalidade desde o decreto de 2016, que abre as portas aos descendentes dos judeus sefarditas. Além de oportunidades de negócio, os filhos deste passado peninsular buscam o encontro com uma identidade perdida.

Já passaram centenas de processos de nacionalidade portuguesa pelas mãos de Renato Martins, advogado, desde a publicação do decreto de 2016, destinado a restaurar as raízes dos judeus sefarditas. Também o jurista brasileiro descende de alguns destes milhares de judeus expulsos de Portugal e Espanha, em 1496.

A taxa de aprovação é de 20% até ao momento, mas nem todos as candidaturas submetidas foram avaliadas. Em Espanha houve também uma corrida aos processos de obtenção de nacionalidade: 170 mil pedidos, contra os 40 mil portugueses.

É um fenómeno recente, instigado por séculos de saudade, mas também pela instabilidade política de Israel, Brasil e outros países da América Latina, os recordistas de pedidos de nacionalidade portuguesa. Renato Martins alega que estas famílias podem vir motivadas por «perspetivas internacionais, internacionalização das carreiras e investimentos na Europa», mas que a saudade nunca deixou de falar mais alto. Se o passado de exílio foi difícil, talvez haja agora uma segunda oportunidade.

Como diz um provérbio judaico: basta um pouco de luz para dispersar muita escuridão.

Fuente: tsf.pt

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